IBC2026: Rádio 3.0 reforça áudio como matriz em estratégia que integra FM, streaming, aplicativos, carros e IA
Painel realizado durante o Aerp Day debateu evolução multiplataforma do rádio, uso de inteligência artificial e desafios para transformar presença e relevância em resultados para as emissor
O conceito de Rádio 3.0, que posiciona o áudio ao vivo como matriz principal de um ecossistema formado pelo FM, streaming, aplicativos, redes sociais, smart speakers, carros conectados e outras formas de distribuição, esteve no centro de um dos painéis realizados neste domingo (13) durante o Aerp Day, evento promovido em Amsterdã durante o IBC2026. Moderada por Cristiano Flores, da ABERT, a discussão contou com Daniel Starck, do tudoradio.com, Cristiano Stuani, consultor, e Caíque Agustini, da ABERT/Aerp, abordando também inteligência artificial, dados, publicidade e os desafios enfrentados por emissoras de diferentes portes. O tudoradio.com realiza uma cobertura multiplataforma do IBC2026 com os apoios da Playlist Software Solutions, ABERT, Aerp, MidiaCom/MS e também da BrasilStream.
A discussão partiu de um trabalho desenvolvido pela ABERT para atualizar a forma como o rádio é apresentado ao mercado publicitário. Segundo Flores, depois de uma série de transformações regulatórias e tecnológicas, como a migração AM-FM e a ampliação das formas de distribuição, passou a existir a necessidade de uma nova narrativa capaz de explicar o que atualmente compõe o meio. “O que faltava, na verdade, para o rádio era uma nova narrativa, sobretudo junto ao mercado publicitário”, afirmou.
Nesse contexto, o Rádio 3.0 procura desvincular a definição do meio de um receptor ou tecnologia específica. Starck lembrou que a própria evolução do rádio ocorreu de maneira natural à medida que novos dispositivos e formas de consumo passaram a fazer parte da rotina da população. “Toda vez que aparece uma nova tecnologia, os profissionais de rádio queriam embarcar de alguma forma nessa tecnologia e ver como que aproveita ela”, disse. Segundo ele, essa capacidade de adaptação ajuda a explicar os elevados índices de alcance e tempo de consumo observados em diferentes mercados internacionais.
O jornalista também destacou uma discussão recorrente sobre a própria utilização da palavra rádio. Na avaliação apresentada durante o painel, abandonar essa identificação abriria espaço para que outras modalidades de entrega de áudio ocupassem um conceito construído ao longo de décadas. Ao mesmo tempo, restringir rádio ao receptor tradicional deixaria de representar a dimensão atual de sua distribuição. “Qualquer dispositivo, conectado ou não, que carregue um áudio, é um rádio em potencial”, afirmou Starck ao apresentar uma imagem utilizada no Dia Mundial do Rádio de 2020 para exemplificar essa transformação.
Áudio permanece como matriz
A definição apresentada considera o áudio ao vivo como ponto central da operação. A partir dele, as emissoras podem desenvolver conteúdos sob demanda, vídeo, redes sociais, aplicativos, portais e diferentes experiências digitais sem deixar de manter a linguagem característica do rádio. “Vocês têm o áudio ao vivo como a matriz principal do conteúdo de vocês e, a partir disso, vocês fazem qualquer coisa”, explicou Starck.

Mandala do Rádio 3.0 apresentada no Aero Day, arte que explica o conceito / tudoradio.com
Stuani destacou que uma das necessidades do trabalho foi justamente separar conceitos que passaram a ser utilizados simultaneamente pelo mercado. Segundo ele, rádio multiplataforma não significa simplesmente colocar câmeras dentro do estúdio. “O rádio ter vídeo no estúdio não tem nada a ver com TV. Cada canal, cada formato tem a sua linguagem e as suas particularidades”, afirmou.
A chamada mandala do Rádio 3.0 apresentada no encontro reúne, entre outras frentes, receptores tradicionais, streaming, rádio híbrido, RDS, redes sociais, sites, aplicativos, smart speakers, Android Auto, Apple CarPlay, rádio visual, inteligência artificial e eventos. A proposta é mostrar que essas tecnologias não concorrem necessariamente entre si dentro da estratégia de uma emissora, mas representam diferentes pontos de contato com a audiência.
A presença nos automóveis recebeu atenção especial. Stuani ressaltou que o telefone conectado ao veículo já disputa diretamente a atenção do motorista e que as emissoras precisam estar acessíveis também por aplicativos adaptados ao Android Auto e Apple CarPlay. Starck complementou que ocupar esses ambientes significa participar da mesma área em que estão disponíveis diferentes plataformas digitais. “Se vocês estão presentes, você vira opção também. Você ocupa espaços”, afirmou.
Segundo Starck, exemplos dessa transformação já estão presentes no próprio mercado brasileiro, inclusive com diferentes níveis de adoção de inteligência artificial, aplicativos e plataformas conectadas. O desafio agora é fazer com que essas experiências sejam disseminadas pelo setor e compreendidas pelo mercado. “O que a gente precisa como desafio é explicar isso para o mercado, para a audiência, para a gente manter uma visão de modernidade”, disse.
IA entra na operação e na análise de dados
A inteligência artificial ocupou a segunda parte da discussão, acompanhando uma tendência observada em diferentes painéis do IBC2026. Stuani ressaltou que a tecnologia pode atuar na operação, planejamento, análise de dados, produção artística, tratamento de áudio e recomendação de conteúdo, mas alertou para os riscos de utilização sem supervisão. “A inteligência artificial não pode trabalhar sozinha, tudo o que ela fizer aqui tem que ser acompanhado, revisado”, afirmou.
Como demonstração, o consultor apresentou um dashboard desenvolvido com auxílio de inteligência artificial que integra diferentes pontos da operação de uma rádio. A ferramenta reúne monitoramento do sinal FM e RDS, audiência do streaming, informações de sites e redes sociais, mensagens recebidas pelo WhatsApp, programação musical, roteiro de programas e acompanhamento de concorrentes.
Na demonstração, agentes de IA foram utilizados para analisar pedidos musicais recebidos pelo WhatsApp, observar oscilações da audiência do streaming, auxiliar na preparação de informações para comunicadores e identificar padrões na programação de outras emissoras. O sistema também foi apresentado como exemplo de como dados já disponíveis nas operações podem ser organizados para apoiar decisões.
Stuani frisou que o dashboard não foi apresentado como produto comercial, mas como uma provocação às empresas de tecnologia que atendem o setor. “Se eu fiz em casa e eu não sou desenvolvedor, imagine o que uma empresa de tecnologia consegue fazer”, afirmou.
Starck observou que o mercado brasileiro apresenta estágios bastante diferentes de utilização dessas ferramentas, desde profissionais realizando as primeiras experiências com sistemas generativos até grupos que já incorporaram estruturas próprias de tecnologia. Nesse cenário, apontou o papel das associações e das iniciativas de capacitação para elevar o nível médio de adoção das novas ferramentas pelas emissoras.

Caíque Agustini, Cristiano Flores, Cristiano Stuani e Daniel Starck durante painel sobre o Rádio 3.0 no AerpDay, no IBC
Desafio também está na transformação em receita
A ampliação das possibilidades tecnológicas, porém, ocorre ao mesmo tempo em que parte do setor enfrenta dificuldades para transformar sua relevância em crescimento das receitas. Caíque Agustini chamou atenção especialmente para a realidade das emissoras do interior e para a necessidade de qualificação dos pequenos radiodifusores.
“O rádio que a gente trabalha não é um, são vários”, afirmou. Segundo Agustini, grandes grupos e redes conseguem estruturar diferentes produtos e oferecer um conjunto maior de soluções, enquanto pequenas emissoras frequentemente operam com equipes reduzidas e empresários acumulando diferentes funções.
Para ele, um dos desafios setoriais é elevar o padrão das operações menores e transformar tecnologia, dados e proximidade com a comunidade em valor comercial. “É como melhorar o nosso padrão dos menores players nas menores praças”, disse. Nesse processo, destacou a atuação conjunta das associações estaduais, da ABERT e de outras entidades na oferta de treinamento e conteúdo aos radiodifusores.
Agustini também apontou uma mudança na relação dos pequenos anunciantes com as plataformas digitais. Segundo ele, métricas de alcance e engajamento nem sempre se convertem em resultados comerciais, abrindo uma oportunidade para o rádio reforçar atributos como proximidade, prestação de serviço e vínculo local. “O rádio segue sendo um baita veículo de comunicação, ele segue prestando serviço cada dia mais relevante”, afirmou.
Flores relacionou essa discussão ao trabalho setorial de valorização da radiodifusão como uma indústria nacional estratégica, especialmente diante do avanço dos chamados desertos de notícias. Segundo ele, o rádio permanece como uma das principais fontes de informação local em muitas comunidades e mantém características de curadoria, linha editorial e compromisso com os mercados onde atua.
Ao abordar a relação com as plataformas digitais, Starck observou que as mudanças nas regras de monetização também atingem empresas profissionais que nasceram ou atuam diretamente no ambiente digital. Segundo ele, a discussão sobre assimetrias e sustentabilidade não se limita ao dial e envolve toda a cadeia profissional de mídia.
O painel também tratou de qualidade técnica, RDS e streaming. Uma intervenção da plateia chamou atenção para problemas relacionados à utilização de códigos no RDS e à qualidade do áudio entregue pelas emissoras na internet. Starck lembrou que cuidados básicos na captação e no encaminhamento do sinal ao encoder ainda precisam ser observados inclusive por operações de maior porte, especialmente para evitar problemas como streaming em mono ou perda de qualidade em relação ao sinal original.
No encerramento, Flores informou que a ABERT mantém discussões com a ANFAVEA sobre carros conectados e proeminência do rádio nas telas dos veículos. O executivo também citou os trabalhos relacionados à regulação e informou que uma nova pesquisa da Quaest realizada em São Paulo deverá ser divulgada em breve, ampliando o conjunto de dados utilizados pelo setor na apresentação do Rádio 3.0 ao mercado.

arte da cobertura do tudoradio.com no IBC2026

