IBC2026: Da radiodifusão às novas plataformas, rádio reforça resiliência e amplia caminhos para alcançar a audiência
Amsterdã – Discussões acompanhadas pelo tudoradio.com conectaram força da radiodifusão, carros, fragmentação da atenção, ecossistemas digitais, IA e novas experiências de áudio
O IBC2026 encerrou no início desta semana mais uma edição em Amsterdã, reunindo 41,2 mil participantes de 170 países e mais de 1,3 mil expositores, em uma programação marcada pelo avanço da inteligência artificial, novas formas de distribuição de conteúdo e tecnologias aplicadas aos diferentes segmentos da indústria de mídia. Os números e os principais destaques gerais do IBC2026 foram divulgados nesta terça-feira (15). Ao longo dos quatro dias de evento, entre 11 e 14 de setembro, a cobertura do tudoradio.com acompanhou discussões que, embora tenham partido de diferentes áreas e mercados, convergiram em vários pontos relacionados ao futuro do rádio e do áudio. A manutenção da força da radiodifusão, a presença nos automóveis, a fragmentação da atenção, a necessidade de distribuir conteúdo em diferentes plataformas, a inteligência artificial e a evolução da própria experiência de escuta estiveram entre os assuntos acompanhados. No caso brasileiro, parte importante desses temas também esteve reunida no debate sobre o conceito de Rádio 3.0, realizado durante o Aerp Day no IBC2026. O tudoradio.com realiza uma cobertura multiplataforma do IBC2026 com os apoios da Playlist Software Solutions, ABERT, Aerp, MidiaCom/MS e também da BrasilStream.
Rádio 3.0 conecta radiodifusão, digital e novas plataformas
Realizado no domingo (13), o painel sobre Rádio 3.0, promovido durante o Aerp Day, reuniu Cristiano Flores (ABERT), Daniel Starck (tudoradio.com), Cristiano Stuani (consultor) e Caique Agustini (ABERT/AERP). A discussão partiu da compreensão de que o áudio ao vivo continua sendo a matriz do rádio, mas sua distribuição passa a ocorrer simultaneamente pelo FM, streaming, aplicativos, redes sociais, smart speakers, automóveis conectados e outros ambientes digitais. A proposta não coloca a radiodifusão e o digital como caminhos concorrentes, mas como partes de uma mesma estratégia para ampliar o contato das marcas de rádio com a audiência. Confira os detalhes do painel Rádio 3.0.
Essa visão encontrou paralelo direto em outras discussões acompanhadas pelo tudoradio.com durante o IBC2026. Se por um lado a indústria trabalha para ampliar sua distribuição em novas plataformas, a radiodifusão segue mostrando resiliência e importância estratégica, principalmente em ambientes nos quais o rádio mantém uma relação histórica com o público. Um dos exemplos mais claros está no automóvel. Durante o fórum internacional dedicado ao rádio, representantes da WorldDAB mostraram que 83% dos entrevistados ouvem rádio no carro, 62% consideram o rádio indispensável no veículo e 85% afirmaram que sentiriam falta dele caso desaparecesse desse ambiente. Ao mesmo tempo, 98% dos carros novos vendidos na Europa já contam com recepção DAB+. Confira a discussão envolvendo rádio, resiliência e presença nos automóveis.
O debate reforçou que a transformação digital do rádio não significa abrir mão de suas estruturas tradicionais de distribuição. Pelo contrário: a estratégia passa por preservar a força, a simplicidade de acesso e a resiliência da radiodifusão ao mesmo tempo em que o conteúdo amplia sua presença nos ambientes digitais. A questão dos automóveis ganha importância adicional diante das transformações dos sistemas de entretenimento embarcados e da necessidade de garantir que o rádio continue facilmente acessível nos painéis dos veículos, independentemente da tecnologia utilizada para entregar o áudio ao ouvinte.
Fragmentação muda a disputa pela atenção
A necessidade de ocupar diferentes ambientes ficou ainda mais clara nas discussões sobre comportamento de mídia. Em uma das apresentações de maior repercussão acompanhadas pelo tudoradio.com, Evan Shapiro mostrou como a atenção do público deixou de estar concentrada em poucos meios e passou a circular entre smartphones, televisão, streaming, YouTube, TikTok, Instagram e outras plataformas. No recorte brasileiro apresentado por Shapiro, 78% do consumo de vídeo ocorre por smartphones, cenário que reforça a importância do dispositivo móvel na relação entre conteúdo e audiência. Veja a cobertura da apresentação de Evan Shapiro.
Nesse ambiente, estar disponível passa a ser tão importante quanto possuir uma plataforma própria. Essa lógica apareceu de maneira bastante prática no caso apresentado pela Southern Cross Austereo (SCA), um dos maiores grupos de rádio da Austrália. A companhia desenvolveu o LiSTNR como ambiente próprio para reunir rádio ao vivo, podcasts e outros conteúdos de áudio, permitindo conhecer melhor seus usuários, trabalhar first-party data, personalização e monetização. Porém, a estratégia não se limita ao aplicativo: a empresa reconhece que seus conteúdos precisam circular também por plataformas de terceiros e outros pontos de contato utilizados pela audiência. Leia mais sobre a estratégia digital da SCA e do LiSTNR.
A experiência australiana se aproxima de um dos principais conceitos discutidos no Rádio 3.0: o objetivo deixa de ser simplesmente conduzir toda a audiência para um único aplicativo e passa a envolver a construção de um ecossistema capaz de encontrar o ouvinte onde ele estiver. Plataformas próprias continuam importantes para relacionamento, dados e monetização, enquanto serviços externos ajudam a ampliar descoberta, alcance e frequência de contato. Essa combinação também apareceu em outros debates do IBC2026 sobre descoberta de conteúdo, nos quais executivos destacaram que a jornada do usuário frequentemente começa fora da plataforma na qual o conteúdo será efetivamente consumido. Veja a discussão sobre descoberta de conteúdo e fragmentação.
De audiência para afinidade
Outra extensão dessa transformação apareceu no painel The Creator Economy Rules, que reuniu Shira Lazar e Evan Shapiro. A discussão colocou em perspectiva a diferença entre simplesmente acumular audiência e construir uma relação de afinidade com o público. Dados apresentados no encontro mostraram que micro e nano creators podem registrar níveis de engajamento até três vezes superiores, custos menores e retorno mais elevado em determinadas ações. O chamado Affinity Quotient também foi utilizado para demonstrar que número de seguidores e alcance bruto não necessariamente indicam a força da relação entre um criador e sua comunidade. Confira a cobertura sobre creators e economia da afinidade.
Para o rádio, trata-se de uma discussão especialmente próxima de características históricas do meio. Companhia, hábito, identificação com comunicadores, proximidade e formação de comunidades são elementos presentes há décadas na relação das emissoras com seus ouvintes. O ambiente digital amplia as possibilidades de transformar essa afinidade em diferentes produtos, conteúdos e pontos de contato, ao mesmo tempo em que exige novas métricas para compreender uma audiência que já não permanece concentrada em um único canal de distribuição.
IA amplia possibilidades de produção e distribuição
A inteligência artificial também atravessou diferentes discussões do IBC2026, mas vários dos exemplos acompanhados deixaram de lado projeções distantes para mostrar aplicações já incorporadas às operações. A ABC australiana apresentou o uso de ferramentas próprias para auxiliar pesquisa, acessar seu arquivo histórico e adaptar boletins produzidos originalmente para o rádio em conteúdos destinados ao ambiente digital, mantendo revisão humana antes da publicação. Já a Olympic Broadcasting Services (OBS) mostrou aplicações de IA na produção esportiva, incluindo sistemas responsáveis pela geração de cerca de 80 mil highlights durante os Jogos Olímpicos de Paris. Confira os usos de IA apresentados pela ABC e pela OBS.
Nesse cenário, a IA aparece menos como substituta da produção original e mais como uma ferramenta capaz de ampliar a vida útil, a escala e as formas de distribuição de conteúdos já produzidos. Para o rádio, a lógica também se conecta ao conceito de produzir uma vez e distribuir em diferentes formatos e plataformas, aproveitando áudio, texto, vídeo, cortes e informações complementares a partir de uma mesma origem editorial.
A própria experiência de ouvir também muda
A transformação não ocorre apenas na produção e na distribuição. Um dos trabalhos apresentados no IBC2026 mostrou avanços na personalização do áudio reproduzido por fones de ouvido. A pesquisa demonstrou que diferenças físicas entre as pessoas interferem na percepção sonora e apresentou uma tecnologia capaz de utilizar fotografias feitas pelo smartphone para ajustar a reprodução às características individuais de cada usuário. Com o crescimento do consumo de áudio por smartphones e fones sem fio, a evolução da experiência de escuta também passa a fazer parte das transformações acompanhadas pela indústria de rádio e áudio. Leia mais sobre a personalização do áudio em fones.
Ao final dos quatro dias de cobertura em Amsterdã, o IBC2026 não apontou uma tecnologia ou plataforma isolada como responsável pelo futuro do rádio. As discussões mostraram um cenário mais amplo: preservar a resiliência e a facilidade de acesso da radiodifusão, garantir a presença do rádio nos automóveis, acompanhar a fragmentação da atenção, distribuir conteúdo por diferentes ambientes, fortalecer plataformas próprias sem ignorar serviços de terceiros, compreender melhor a afinidade com a audiência e utilizar inteligência artificial e novas tecnologias para ampliar produção, distribuição e experiência de consumo.
Nesse sentido, os diferentes debates internacionais acompanhados pelo tudoradio.com acabaram convergindo com vários dos pontos levantados pelo mercado brasileiro durante o Aerp Day. O Rádio 3.0 surge menos como a substituição de um modelo anterior e mais como uma ampliação do rádio para diferentes formas de distribuição e relacionamento, mantendo o áudio e a programação ao vivo como referências enquanto emissoras e marcas procuram acompanhar o público em uma jornada cada vez mais distribuída entre dispositivos, plataformas e ambientes.
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arte da cobertura do tudoradio.com no IBC2026
